Portugal reacende pesadelo do ‘fogo da morte’ | Empresa | Edição América

“Estou indo. É o fogo da morte.” Agostinho não esquece a frase proferida por um bombeiro ao recuar do incêndio no Lavradio, uma das zonas mais afetadas pelas chamas que deixaram Portugal com cerca de 700 evacuados e milhares de hectares queimados.

O Lavradio e outras comunidades vizinhas foram devastadas pelo fogo que assola desde domingo na região de Leiria (centro do país) e fez reviver na memória dos portugueses a tragédia de Pedrógão, na mesma zona, que em 2017 causou 66 mortos e mais de 260 feridos.

Os focos em Leiria estão controlados, mas os bombeiros temem uma reativação. Ainda há estradas cortadas e dezenas de unidades de bombeiros combatem as brasas apoiadas por aviões e helicópteros.

“Ninguém limpa a floresta, ninguém corta a grama. Ninguém faz nada. Por isso há incêndios. O Estado não faz nada”, lamenta Agostinho.

“Tudo isso está causando incêndios assustadores. Há pouco tempo eu estava lá em cima com os bombeiros e tivemos que fugir. E um deles disse: ‘Estou indo embora. , é o fogo da morte’. Tem que acontecer abrir os olhos”, repete.

As chamas atingiram as portas de sua casa e destruíram uma fábrica e oficina próximas. O pior, diz ele, é que essa área já foi devastada em 2005.

Agostinho não teve de sair de casa, mas os incêndios obrigaram à evacuação de cerca de 700 pessoas em todo o país.

Leiria (centro), Parque Peneda Gerês (norte), Faro (Algarve, sul) e Palmela (Setúbal, perto de Lisboa), são as frentes que mais de mil bombeiros, gendarmaria nacional e militares combatem hoje.

O incêndio deixa milhares de hectares devastados, dezenas de casas e quintas destruídas e ameaça o campus da Universidade do Algarve.

A Proteção Civil registou cerca de 45 feridos, embora apenas dois graves, e a polícia está a investigar a morte de uma mulher de 50 anos carbonizada num pequeno incêndio rural em Aveiro – numa zona afastada da zona vermelha dos incêndios – no que parece ser um acidente.

A seca sofrida pela maior parte do país está alimentando o fogo e o baixo nível de água nas barragens dificulta o abastecimento dos aviões que estão em extinção.

“JÁ ACONTECEU, O MESMO”

Agostinho não é o único no Lavradio a recordar o pesadelo vivido pela cidade há quase vinte anos. “Em 2005 aconteceu a mesma coisa, tudo pegou fogo. O que está acontecendo agora já aconteceu em 2005. Exatamente a mesma coisa”, lamenta Gil.

“Há um reforço da prevenção, mas não vale a pena enquanto eles continuarem pegando os incendiários e depois soltando. Não vai acabar”, diz.

“Ontem foi pandemônio, hoje é o mesmo. Até o resto queimar. Quando tudo queima, para. Não há mais nada para queimar, deve parar.”

Sua vizinha Emilia estava prestes a perder sua casa e hoje vê a de seu irmão, um imigrante que mora na França, ameaçado.

“O que você quer que a gente faça? Não podemos fazer nada. A casa do meu irmão é ali, que fica na França. E a minha é ali, ontem o fogo ficou a 300 metros, ele atingiu a terra.”

Também Eliandro Silva, brasileiro que vive em Leiria, parece surpreso com a destruição nos arredores da cidade.

“Geralmente não há incêndios nesta área… Um incêndio como este não surge do nada.”

FORTALECIMENTO AO AR

Da serra do Lavradio, ou das vizinhas Ourém e Caranguejeira, avistam-se as colunas de fumo que se multiplicam, abanadas pelo vento. E a situação deverá agravar-se nas próximas horas, admite a Proteção Civil.

Para fazer face à eventualidade, Portugal ativou o mecanismo de ajuda da União Europeia pela segunda vez numa semana e vai receber quatro aviões de França e de Itália, que se juntarão aos dois enviados domingo pela Espanha.

O primeiro-ministro português, António Costa, insistiu hoje no apelo à responsabilidade cívica e defendeu a generalização dos cadastros no meio rural para que “a floresta deixe de ser uma ameaça e passe a ser um dos grandes bens do país”.

O governo não descarta estender o alerta vermelho e o estado de contingência decretado até sexta-feira (por exemplo, as atividades em áreas florestais estão proibidas), enquanto especialistas falam de uma “tempestade perfeita” que ameaçará o país por dias.

Por Paula Fernandez e Brian Bujalance

Cristiano Cunha

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